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Na cama, abraçada com o edredom, enquanto sentia o frio do ar condicionado que tomava conta do quarto pequeno e escuro, de paredes verde claro.
A chuva forte e o vento tentavam passar pela persiana totalmente fechada, mas só se escutava o barulho dos pingos grossos e o assobio do vento.
Os olhos estavam fixos no teto.
Mesmo com todos os canais da tv a cabo, não havia um que prendesse a atenção. Nem os seriados que ela sempre assiste.
Um dia de folga forçada. A dor se tornou incômoda. Um dedo quebrado e uma fissura leve no peito do pé esquerdo. Ela já passou por isso tantas vezes, que riu sozinha no quarto. Vai tentar proteger o pé dela mesma, quem sabe assim, se machuque menos.
Não adiantaria muita coisa, quanto mais se protege, mais se machuca. Deveria ser ao contrário. Ou talvez ela devesse aprender de que se proteger. Difícil, como ela iria adivinhar que a própria avó a atropelaria? Trágico e cômico, como quase tudo que acontece na vida dela.
Impossível mantê-la quieta por muito tempo. Repouso é uma palavra que não existe.
Sentou na cama e observou a imagem refletida no espelho embaçado pelo ar. Reconheceu alguns traços daquele rosto fora de foco, quase desconhecido. Não mostrava o que sentia nem o que queria. E quase sem querer, ela sabia.
Sentiu a umidade e o frio molhando a ponta do dedo enquanto o coração acelerava. Era uma sensação gostosa. Desenhar no espelho, no boxe e nos azulejos do banheiro era um prazer tão simples que a encantava, desde criança. Então fez uma carinha =) E se achou a mulher mais previsível do mundo. Tudo parece tão igual, como círculos viciosos que se repetem. Lembrou de uma amiga, riu e deu razão ao que sempre ouve.
Pensou em escrever uma história. Sem precisar viver, só pelo prazer de deixar mais concreto um pouco de tudo o que ela pensa. Dessa vez concordou com uma outra amiga, ela realmente pensa demais. E perde muito tempo com medos dignos de quem tem um coração todo remendado.
Ela não quer a história perfeita, com o personagem ideal, um "e foram felizes para sempre" na última página do livro. Ela só quer sorrir mais um pouquinho. Aquele sorriso que contagia, toma conta de cada poro do corpo. Como se ela fosse uma gargalhada ambulante.
As férias passaram rápido. Há quase trinta dias ela desembarcou nesta cidade, velha conhecida, sem grandes pretensões, pensando que o mês de janeiro fosse demorar e que logo logo ela se entediaria de estar aqui. Surpresa! Ela mudou de idéia, começou a trabalhar, se encantou e decidiu ficar mais um mês. Vai correr certos riscos.
Começou a conhecer a cidade de uma maneira diferente, não os mesmo caminhos de sempre, não aqueles que têm pedaços do passado dela. Os que estão escrevendo o presente, o momento. Ruas que talvez ela não volte nunca mais.
Quando o pé começou a doer ela se rendeu à cama. Deitou novamente e atendeu o telefone. Tentou conter o riso. As horas que se seguiram passaram tão rápido que ela podia jurar que não tinha nem dez minutos que o telefone havia tocado. Ela cisma em achar que os ponteiros sempre fazem complô contra ela.
Escureceu e parou de chover. O ar condicionado não estava mais esfriando e o calor se tornava insuportável. Pela janela, um céu sem estrelas nem nuvens. Uma noite abafada, que promete chuva e vento frio mais tarde.
Juju =) escreveu às:
10:12 PM
acidente de percurso
ontem eu consegui ser atropelada pela minha avó na porta da tv. ela simplesmente esqueceu que eu estava assinando um documento encostada no carro e com a porta aberta e deu marché. passou por cima do meu pé esquerdo de uma vez só, com um pneu e bateu com o outro. eu vi estrelas num céu escaldante de meio dia. depois de ter passado quase 4 horas na SEAD fazendo a matéria sobre o processo seletivo da SUSAM. e desde de 7:45 que o sol estava ardido.
vida de repórter
eu tenho feito as externas de manhã cedo. normalmente são matérias de comunidade e quase todas iguais. aqueles problemas que nunca parecem ter solução, o descaso com o povo, qualquer coisa que eu não consigo chamar de vida nem de dignidade.
infelizmente eu não sou profissional e esta é a primeira vez que vejo as coisas como são e onde entra a ética da profissão e outras coisas a mais. eu sei que o repórter é "um instrumento de comunicação", digamos assim. precisa manter a imparcialidade e de modo algum não pode se envolver.
há poucos dias fui na rua pau brasil, no jorge teixeira dois. secretaria de limpeza organizou um mutirão para limpar o bairro, mas deixaram aquela rua de lado. por doze dias, com todo aquele lixo espalhado. a parte "boa" da rua está completamente sem asfalto, só alguns resquícios de que um dia ele existiu ali. impossível passar carro, ônibus nem se cogita. sarjeta só tem onde os moradores, que nem dinheiro para comer tem, conseguiram fazer. e a oura metade da rua é uma ladeira ingrime onde estava o lixo que o mutirão não levou. o fiscal disse que ficaria daquele jeito mesmo.
a rua não deve ter 15 metros de largura, o lixo praticamente estava na porta das casas. quando chove fica tudo alagado.
mas o que me derrubou mesmo foi ver a quantidade de criança ali. um menininho em especial, de uns três anos mais ou menos, pelado, brincando na rua. no cachorro só se enxergava a pele e os ossos.
uma senhora havia ligado para a tv pedindo que fizessem uma matéria sobre isso.
admiro o profissionalismo da reporter e do cinegrafista que eu tenho acompanhado todos os dias. eu me senti tão pequena diante de tudo aquilo. de muito mais que eu não escrevi aqui. são duas realidades, dois mundos muito distintos. e a fronteira é a mediocridade e o descaso.
tentando relaxar
quando terminamos de fazer essa matéria o cinegrafista me filmou tentando descer essa ladeira, de sandália alta, morrendo de medo, com bico de choro ainda e óculos escuro. depois que ele riu bastante da cena ele me ajudou a descer, risos.
claro, sempre tem a parte cômica...ou aquelas famosas coisas que só acontecem comigo.
Juju =) escreveu às:
11:05 PM
it's up to you
confusão. segunda a quarta. segunda e quarta. hoje é terça, dia de pizza de marguerita e de presunto. borda de mussarela. coca light e sprite.
atravesso a rua para a sobremesa. sorvete de brigadeiro e de floresta negra na cestinha. sem chocolate quente no fundo. nada é perfeito. flocos e frutas tropicais no copo. lá fora uma noite abafada sem nuvens e sem estrelas. céu limpo. acho que amanhã vai chover, sempre chove.
começa a esquentar e deixo o sorvete de lado, derretendo. estava doce demais. a cestinha disforme, sem as bordas. que bom que nada é perfeito. e a colher vermelha ainda espera cair, como se estivesse grudada. estranha sensação esta da espera. por quê não cai logo?
caneta azul e guardanapos transparentes. 30. 21. fico vergonha, não sei desenhar. alguns esboços e uma estoria. inglaterra, 1756. qual vai ser o enredo? e a colher continua lá, esperando sem pressa, sem sentir. o tempo passa rápido demais. os ponteiros correm. nunca me acostumei com o mundo das horas. quem as inventou? pra quê?
na tv o jornal da globo. tarde, mas nem tanto. duas horas a menos. série 24 horas. não assisto. não sei o que se passa. um episódio a cada hora? conheço isso. tão bem quanto a opção de mudar de cidade para deixar alguém para trás.
tudo bem, é a minha vez de escrever. às vezes prefiro a não fixão, a realidade também pode ser boa. começo e não paro. não penso. não vou reler. vou deixá-lo espontâneo, despreocupado, embaralhado. como sempre, todo misturado. gosto das metáforas, que nem sempre são para fazer sentido.
cheiro de menina, de flores suaves, de hidratante e de perfume. de romance. da ralph lauren. misturados com quasar.
dois cds. cartela de adesivo. cinco guardanapos. esqueci de crescer e ainda me dão corda.
it's up to you (the tuesdays)
Juju =) escreveu às:
3:04 AM
o último samurai
paisagens que parecem quadros. céu pincelado. de laranja, amarelo, azul, rosa, vermelho. sol nascendo. sol se pondo. exposição de telas mágicas. atmosfera tensa. a ignorância do homem não tem limites. acaba-se com tudo por nada. faz-se guerra e pede-se paz. dois mundos. distintos. juntos. duas realidades. uma vida. honra. questão de escolhas. não da para voltar atrás. o sangue já foi derramado. não vi. tenho medo. me assusto. abri os olhos. de novo. cinema cheio. quente. chocolate ao leite. e com pedacinhos de avelã. duas horas e meia. sem sentir. o tempo nunca é suficiente. mas sempre sobra muito. para se perder um pouco. e acaba que se perde todo.
espadas que têm alma. uma tradição há muito acabada. homens com estilo de vida intrigante. maneiras admiráveis. outras, para sempre, incompreensíveis. sentimentos reprimidos. submição. aceitação. crença. morte. morte. vida. sigue. continua. muda. um dia tudo muda. prefiro acreditar que certas coisas permanecem do mesmo jeito. como chorar no filme e esconder o rosto quando ascendem as luzes. sair do cinema pensativa. quieta. às vezes me sinto frágil. quebradiça. desprotegida. em outras não sinto nada.
mas sempre há espaço para um abraço. demorado. aconchegante. apertado. no primo, que voltou hoje. no amigo, que há muito eu não via. no travesseiro. a noite inteira.
***
tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você, não é me dominando assim, que você vai me entender, posso estar sozinha, mas eu sei muito bem aonde estou, você pode até duvidar, mas acho que isso não é amor...
um título desligado. perfeito. para um texto cansado. escrito por alguém com uma terrível dor no braço. e uma de cabeça pior ainda. tpm longa. ou será que esta é aquela de fases? na próxima encarnação eu quero ser...(...) e se não houver próxima encarnação? continuo passando cataflam no braço e tomando tylenol.
na verdade tudo não passa de fases. fria. racional. chata. egoísta. irritada. cansada. sensível. chorona. bata tudo no liquidificador e penere. doses homeopáticas. efeitos colaterais imprevisíveis. em caso de overdose a deixe em paz. não insista. cuidado, dizem que vicia. o bom pode ficar ruim. o doce às vezes fica amargo. e o quente, frio.
a frieza é seletiva e intolerante. garçom, por favor: uma dose de inteligência para o rapaz e uma de ignorância para mim.
"handle with care fragile material" escrito de lilás na blusa branca. meias brancas.
ainda é cedo (legião urbana)
Juju =) escreveu às:
2:28 PM
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